Reflexões a respeito das profundas criações de Poe

Posted: October 29, 2012 in Notas sobre os contos

NOTAS PRELIMINARES
Se deve a POE a criação do gênero policial, com seus contos de raciocínio e dedução, cabe-lhe também o mérito de haver renovado e o romance de terror, de mistério e de morte, neles introduzindo o fator científico que lhes daria certo cunho de verossimilhança
de verdade. O gênero já existia e era fartamente difundido nas letras inglesas, alemãs e francesas. Já em 1764, com o seu Castelo de Otranto, Horace Walpole, romancista inglês, iniciava o gênero que se chamou “romance negro” ou “romance gótico” , talvez porque a
ação se situava quase sempre em velhos e mansões medievais. Clara Reeve secundou-o.
Mais tarde Anne Radcliffe enchia seus livros de cenas e personagens aterrorizantes. Lewis imprimia-lhe a marca do satanismo e Maturin, na França levava-o às raias da loucura e da fantasmagoria. Na Alemanha com João Paulo Richter perde-se ele pelo vago
e pelo poético imaginoso, com Hoffmann atinge os limites do maravilhoso fantástico. Na própria América do Norte, cuja literatura iniciava, Charles Brocken Brown transplanta para as terras do Novo Mundo as fantasmagorias e horrores dos romances de Anne
Radcliffe, completando-os com as obsessões e os terrores íntimos de seus personagens.
A influência do “romance negro” foi imensa na Inglaterra, França e na Alemanha. Pode-se encontrá-la em escritores Walter Scott, Byron, Shelley, cuja esposa, também escritora, criou o famoso personagem Frankenstein. O romantismo iria se aproveitar de muito dos
cenários e das emoções desencadeadas e até do fantástico e do maravilhoso de que os romancistas abusaram. Nodier, Victor Hugo, Jules Janin, Balzac não escaparam à influência do gênero.
Mas deve-se, na verdade, a Edgar Poe tê-lo renovado, e ter feito dele uma obra de arte e não um meio de desencadear terrores em leitores impressionáveis tirando-lhes o sono. Deu-lhe em primeiro lugar uma concentração de força explosiva que não existia nos demais autores que diluíam a força aterrorizante em romances enormes e por por demais atravancados de coisas inúteis, numa acumulação de crimes e episódios pavorosos que, pelo próprio excesso, perdiam a verossimilhança e a possibilidade de impressionar mais fundamente o leitor. Incapaz por natureza e pelas circunstâncias de sua vida de escrever longos romances, Poe aperfeiçoou-se na estória curta, no cujo valor reside especialmente na sua força concentrada. Mas o que distingue os seus contos do clássico conto ou romance de terror
é certa tônica de autenticidade e de realidade que predomina nas suas estórias.

Enquanto os demais autores descreviam um exterior, um medo que provinha do mundo sobrenatural, da fantasmagoria, um medo de cenografia teatral com alçapões, fumaça de enxofre e satanases chifrudos, rasgando risadas arrepiantes, descrevia um medo real, um
medo que estava dentro do personagem, um medo que estava dentro dele próprio, autor, porque eram os seus terrores, as suas fobias, os seus recalques, reais, autênticos e verdadeiramente existentes, que ele transfundia em seus personagens, que eram sempre projeções dele, Poe, e não criaturas tiradas do mundo objetivo. Não há conto algum de Poe que seja na na terceira pessoa. Ele é quem sempre fala, quem sempre ou quem está presente para ouvir a confissão deste ou daquele personagem. E é o seu “eu” repleto de terrores, de presságios, de complexos, de inibições, de males físicos e morais que se revela nas suas estórias de terror e de morte.
A morte da mãe, com redobradas hemoptises, deve ter pressionado fortemente a sensibilidade do menino, que já carregava consigo a hereditariedade alcoólica do pai; sua condição de filho adotivo dos Allan, de futuro incerto, depois da morte de Frances Allan e
das desavenças com John Allan; o vício do jogo e da embriaguez e mais tarde dos estupefacientes; o medo que sempre o dominou, de ficar louco, pois a debilidade mental da irmã Rosália fazia-o temer que também ele perdesse a inteligência aguda e viva que era
o seu orgulho, os ataques de adversários e invejosos; as condições de quase miséria em que quase sempre viveu; os seus complexos de origem sexual; tudo concorria para exacerbar-lhe a sensibilidade e povoar-lhe a mente de terrores intensos e alucinações. O medo, pois que existe nos seus contos é um medo real, autêntico, sentido, arraigado. O Prof. Boussoulas escreveu mesmo um trabalho a respeito do medo na obra de Edgar Poe. Maria Bonaparte, também, numa obra compacta e minuciosa, andou, com aquele carniçamento tão próprio dos psicanalistas e com todos os exageros da escola
freudiana, a explicar todas as implicações sexuais que existem nos contos de Poe, apesar de haver ele escrito uma obra que prima pela sua ausência de sensualidade, pela sua castidade, pela sua aversão as cenas de amor físico.
Mas em Poe sempre existiu uma dicotomia psíquica. Sua inteligência aguda, racionalista, em que se juntavam metafísica e física intuição poética em alto grau e raciocínio matemático, frio e desapaixonado, sempre procurava manter-se alerta, tornando-o capaz de apreciar os desenvolvimentos de seus terrores, de suas fobias, no momento mesmo em que se produziam. Era como um médico que sentia e diagnosticava os seus próprios males. Essa dicotomia marca a personalidade de Poe. Foi sempre um dilacerado, um homem dividido em duas naturezas: uma angelical e outra satânica.
Sua luta contra o vício da embriaguez, contra a dipsomania, foi luta de longos anos, conhecia a sua fraqueza e condenava-a. Personagens condenáveis, fracos, viciosos, de seus contos nunca são exaltados ou elogiado, mas lamentados, dignos de dó, e condenados a pagar com a morte os próprios vícios. Essa luta de seus “eus” encontra-se
fixada no seu conto “William Wilson”, que ele mesmo considerava dos melhores que produzira.
Os mistérios da mente, o mistério da morte constituem o tema principal dos contos de Poe. Os terrores que ele descreve com intensidade e impressionante realismo são terrores que se geram na mente do personagem, e a realidade ambiente é vista através desse
terror e por ele deformada. No seu livro Edgar Poe pour luimême, o escritor Jacques Cabau assinala que “o conto de Poe é contrário do conto de terror clássico. Em lugar de lançar um indivíduo normal num universo inquietante, Poe larga um individuo inquietante em um mundo normal. Nada acontece ao herói, ele é que acontece ao
mundo. Não é tomado por um horror exterior;não é o medo que dispara a neurose, mas a neurose que suscita o medo. O herói é medusado pela sua própria visão. Uma vez apanhado nos seus próprios mecanismos de fascinação, é arrastado para a engrenagem
da obsessão”.
Numa época em que começaram a desenvolver-se o magnetismo e o espiritismo, precisamente na América do Norte, não hesitou Poe em valer-se desses novos meios de criar sensação e não faltam em seus contos os casos de reencarnação, hipnotismo, ou mesmerismo, como se costumava chamar na ocasião. Mas em todos ou quase todos há sempre um mergulho em certas profundezas da alma humana, em certos estados mórbidos da mente humana, em recônditos desvãos do subconsciente. Por isso os psicanalistas lançam-se com afã ao estudo da obra de Poe, porque nela encontram
exemplos a granel para ilustrar suas demonstrações. Independentemente, porém, desses aspectos, o que há nela é um talento narrativo eficiente e impressivo, uma força criadora, realização artística, que explicam o ascendente enorme que em nossos dias exercem os contos de terror de Edgar Allan Poe.
O.M.

Referência da imagem: http://saladeleituraencantada.blogspot.com.br/

Referência do texto: http://pt.scribd.com/doc/103516558/Edgar-Allan-Poe-Notas-Preliminares

Colaboradores: Luana dos Santos, Djane Salles, Harry.

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